Artigo | O Neoliberalismo é uma novíssima tradição

1 de março de 2020
Autor: Cristóvão Feil

(Os homens não perguntam mais pela verdade)

Cristóvão Feil*
 

O neoliberalismo foi um esforço para deslocar da cena moderna o projeto socialdemocrata e a teoria keynesiana. Implica, também, em rever os ideais iluministas de democracia formal, igualdade pelo direito e justiça social, como forma de legitimação precária e instável do conflito, no proclamado Estado de Direito.

A idéia de cidadania se já era pálida e incompleta, agora fica indeterminada no ambiente poluído de coisas e alienação. O ideal do direito burguês de cidadania, hoje, está comprometido no déficit político-institucional da sociedade da mercadoria, está alienado ao poder do dinheiro. A cidadania da forma-mercado é uma lúmpen-cidadania.

O sempre mitigado projeto democrático burguês se nunca foi muito caudaloso, hoje, é um simples córrego que paulatinamente ameaça inverter o seu fluxo de direitos civis, haja vista os retrocessos sob Bush e Trump nos Estados Unidos. A democracia como ideologia cede, presentemente, seu lugar à ciência; que assume cada vez mais funcionalidade orgânico-mecânica, tanto na base econômica, quanto na superestrutura das sociedades pós-industriais.

Se a socialdemocracia apresentou-se politicamente em módulos nacionais, privilegiadamente nos Estados nacionais, referenciada pelas formações sociais e culturais da história localista dos povos; o neoliberalismo, ao contrário, impõem-se como fenômeno transnacional, onde as conexões ocorrem por exclusiva relação econômico-monetária.

A socialdemocracia é um fenômeno de classe, de relações de classes, marcadas por um compromisso nacional hegemônico, dentro das fronteiras políticas de um Estado dado.

O neoliberalismo é um fenômeno não mais de relações de classes, mas do próprio capital que define as classes. É a autonomia do capital e do dinheiro como ordenadores fetichizados da sociedade humana. As coisas e o dinheiro como sujeitos; o homem como objeto. A quintessência da inversão marxiana. A teologização profana da mercadoria como divindade vulgarizada das coisas.

Se os mitos e as religiões são os modos primevos de os homens submeterem-se a algo que eles mesmos criaram; na pós-modernidade do capital as criações dos homens (as mercadorias e o equivalente geral, o dinheiro) submetem-no a ponto de comprometer a própria existência da vida. Subtraindo tudo do homem, só lhe resta a própria vida, na forma de um corpo sem vontade, sem liberdade, sem direitos. Uma desumanidade, assim, é quase uma animalidade – como previu Marx.

A cada dia o homem imola fragmentos da sua humanidade alienada na pósmoderna religião do mercado.

Se à modernidade corresponde a ascensão hegemônica da burguesia que se manifestou politicamente através da democracia representiva e do Estado liberal-socialdemocrata, a pósmodernidade corresponde à radicalização liberal que se despoja das veleidades democráticas (e com isso da socialdemocracia) para atender com exclusividade aos desígnios reificados do capital.

Deve-se entender, pois, que, como afirma o australiano Peter Beilharz, “a modernidade não é o que vem depois da tradição, ela é uma nova forma de tradição”. E como tradição, é só memória: é ânimo pelo passado e desânimo pelo futuro. Pelo futuro nada se pode fazer, o passado já se encarregou dele – esta é a índole das tradições puras. Neste sentido, quando a modernidade faz-se só tradição, impedindo o movimento das contradições e querendo estancar as indeterminações desafiadoras do futuro, ela faz-se reacionária e anacrônica. Apesar das aparências em contrário.

A burguesia, via neoliberalismo, quer terminar a sua revolução, que julga incompleta. A rigor, quem quer terminar a sua revolução é o capital; completar-se por toda a extensão do globo – globalizar-se. Por isso, a globalização é uma designação do capital, e uma resignação da burguesia industrial. A burguesia como fenômeno de cultura nacional dá lugar a uma nova classe monetária transnacional embalada numa cultura de simulacros, tendo como suporte ideológico a legitimidade da ciência e das novas tecnologias. A forma dos Estados nacionais perdem a sua consistência na construção das justificações do Direito e da ideologia. A cientificização e a tecnologização da vida social e política ao mesmo tempo que justifica a Ordem, propõem a vertiginosa reprodução ampliada do sistema.

A ciência, assim, revela-se luminosamente na sua insuspeita lei dual: a parcela força produtiva, e a parcela ideológica. Desdobrando-se numa exaustiva dupla jornada: de dia, trabalha na produção, como operária do capital, às vezes como capital e trabalho morto; e à noite, tece um fino e transparente véu ideológico que serve de invólucro para os homens e as mercadorias. O selo científico substitui a verdade, representando a verdade. E os homens não perguntam mais pela verdade, mas pela ciência e os produtos da ciência; mal sabendo que os produtos da ciência são filhos dos próprios homens. Mas cegos, alienados, não os reconhecem, acham-se estranhos àqueles produtos, consumindo-se em irrazão e má consciência.

Em 28 de fevereiro, 2020.

 

(*) Sociólogo

Edição: Marcos Corbari

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