Programa Camponês: comida boa para o campo e a cidade (artigo de Marcelo Leal)
Por: Marcelo Leal
*Marcelo Leal
O Alimento como mercadoria
A agricultura camponesa produz 70% de todos os alimentos que chega à mesa do povo brasileiro. Contudo produz em meio a grandes dificuldades: com pouca terra, sem terra, com escasso e burocratizado acesso ao crédito, sem assistência técnica e vende barato direto para o primeiro atravessador, pois não possui meios de transportar e agroindustrializar os alimentos produzidos.
Nas cidades os trabalhadores urbanos, operários, petroleiros, professores, motoristas e outros prestadores de serviços se alimentam com ração processadas pelas indústrias capitalistas.
A indústria capitalista dos alimentos quer a comida boa, orgânica e sem veneno, para os ricos; comida envenenada e com transgênicos para os pobres; e a fome aos miseráveis. A indústria esconde para a sociedade que quem produz é a agricultura camponesa, os pequenos. Nas prateleiras dos mercados quem aparece como produtora são as marcas como Nestlé, Bunge, Cargill, Coca-Cola entre outras.
Como quem tem dinheiro e pode pagar. Aos pobres destina-se a comida envenenada e transgênica, que causa doenças, alergias, câncer e outras doenças que afetam nossas famílias.
Alimento de verdade une o campo e a cidade
A agricultura camponesa precisa de melhores condições para produzir, mais e melhor. O povo trabalhador da cidade quer alimento de verdade à sua mesa. O povo trabalhador da cidade é pobre, tal qual são os camponeses e camponesas no campo. Trabalhador do campo e da cidade possui a mesma vontade – ter liberdade, direitos e comida boa para todos.
A agricultura camponesa e os trabalhadores da cidade sabem que as conquistas vem com luta, com luta que envolve muita gente, que sensibiliza a sociedade e abre no poder de Estado, que sempre serve aos ricos, uma brecha para de direitos para as camadas mais pobres.
O Programa Camponês é união e luta do povão trabalhador para que o pão nosso de cada dia não seja envenenado.
Dizem que a necessidade faz a vontade. Que a vontade cria a união. E a união cria a Liberdade. O Programa Camponês é quando campo e cidade se une e luta para poder produzir e consumir comida de verdade. Comida saudável, que alimenta e cura. Comida que é cultura, memória, conhecimento, saúde e resistência.
Quatro passos para conquistar e construir o Programa Camponês
Primeiro passo – união e luta: o primeiro passo para conquistar o Programa Camponês é a união e a luta. A primeira união é entre os camponeses e camponesas, depois com os trabalhadores da cidade. Unidos e em luta se pressiona o estado – governo federal, governo estadual e prefeitura municipal – a apoiar com recursos a produção e o consumo de alimentos.
Segundo passo – investimento na produção ecológica: o Estado apoia com recursos subsidiados os investimentos da porteira para dentro, na unidade de produção camponesa:
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Recuperação de solos através da adubação verde, pós de rochas, adubos orgânicos e biofertilizantes.
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Sementes para produção de feijão, milho, hortaliças, arroz, mandioca e outros alimentos.
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Construção de galinheiros e pocilgas para produção de ovos e carnes.
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Produção de mel: kit com caixas para abelhas, equipamentos de segurança, centrifuga e todo equipamento para produzir mel de qualidade.
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Mudas para implantação de pomares e agroflorestas para produção de frutas, madeira, lenha, florada para as abelhas e fazer recuperação ambiental das nossas propriedades.
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Estufas e telados de sombrite para produção de hortaliças.
Nessa fase é fundamental a assistência técnica e cursos de capacitação feitos por técnicos e agricultores que sabem fazer agroecologia.
Terceiro passo – agroindústria, transporte e centro de distribuição de alimentos: investimentos nas cooperativas para construir agroindústria de processamento de alimentos, produção de insumos orgânicos e adquirir caminhões para transportar os alimentos:
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Agroindústria de processamento de hortaliças, fabricação de queijos, padarias, casa do mel, sucos e doces, frigoríficos, secagem e armazenagem de grãos entre outras.
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Aquisição de patrulhas agrícolas com tratores, semeadoras, carretão, batedores de cereais e vários implementos para atender os grupos organizados, diminuir o trabalho penoso e aumentar a produção.
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Agroindústria de insumos para produção em escala de adubos orgânicos, pós de rochas, biofertilizantes e controladores biológicos de pragas e doenças de plantas e animais.
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Aquisição de caminhões e camionetes para transportar os alimentos e os insumos.
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Investimento em centros de distribuição de alimentos com câmeras frias, equipamento para seleção e padronização dos alimentos.
Quarto passo – comercialização: nosso povo sabe produzir, porém tem dificuldades de comercializar e cai nas mãos dos atravessadores. Sem esse passo a marcha não termina, e os camponeses para a marcha a poucos metros da chegada final. É preciso ter coragem, perder o medo e a vergonha. Enfrentar os fiscais sanitários e as prefeituras.
São muitas as formas que podemos comercializar, vejamos algumas:
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Venda direta para o consumidor, da família camponesa para os consumidores.
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Feiras municipais: é preciso retomar a cultura de fazer a feira. Na feira se vende, se troca e se defende o nosso projeto de agricultura, é um espaço político.
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Organizar cooperativas e grupos de consumidores na cidade: entregar cestas de alimentos.
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Construir mercado popular de alimentos.
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Lutar por programas institucionais: merenda escolar, o Programa de Aquisição de Alimentos entre outros.
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Venda direta aos supermercados: as famílias devem ser organizar junto das cooperativas para ter quantidade, qualidade e regularidade.
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Usar as ferramentas da internet, as redes sociais, para vender produtos não perecíveis.
*Engenheiro Agrônomo e Dirigente do MPA/RS.