Júlio Lázaro Torma | MUDANÇA NO DISCURSO LIBERAL
Autor: Júlio Lázaro Torma
MUDANÇA NO DISCURSO LIBERAL
Júlio Lázaro Torma

Os liberais terão e deverão mudar o seu discurso, com o qual entram em uma grande contradição.
Vivem uma grande contradição quando defendem o chamado “Estado mínimo”: que o Estado não deve interferir na economia e na livre iniciativa. Quando os empresários, o agronegócio e o sistema financeiro entram em crise, à beira da bancarrota, falindo, logo começam a gritar e a exigir a intervenção estatal para socorrer a iniciativa privada. O Estado deve intervir, socorrer, dar incentivo por determinado tempo a esses setores que estão em crise.
Olhando o recente caso das praças de pedágio nas BRs 116-392 em nossa região, vê-se que os defensores do modelo neoliberal, que implantou esse modelo de gestão nas rodovias, foram os primeiros a gritar contra os valores dos pedágios e as concessões à iniciativa privada para gerir e cuidar da manutenção das nossas rodovias, além de garantir agilidade no socorro em casos de acidentes rodoviários em nossas estradas.
“Não queremos concessionárias, nem contratos! Pagamos o pedágio mais caro do Brasil!” E querem o Estado, a máquina estatal, administrando as rodovias.
Aqui vemos a grande contradição: querem o Estado ou a iniciativa privada administrando?
Que tudo o que é estatal é ruim, não presta, é atraso, cabide de emprego — “nossas estradas estão em péssimas condições, o Estado não consegue fazer a manutenção”. Discurso este que justificou as privatizações nos anos de 1980-1990.
As privatizações seriam boas: melhor atendimento de qualidade, mais agilidade e livre concorrência.
Mas, para a empresa privada, é preciso dar manutenção nas estradas. Aí ela, como toda empresa privada, não trabalha de graça, nem faz obra de filantropia. Precisa cobrar uma taxa de quem circula por aquele percurso. A manutenção é muito cara, exige reparos periódicos e permanentes: termina um trecho e já há outro para iniciar. Sendo assim, é obrigada a ajustar os valores dos pedágios.
O Estado, através de licitação, concede à empresa que venceu o leilão o direito de explorar por um tempo determinado, e depois recorre-se a uma nova licitação de 20, 30, 40 ou 50 anos.
Nesse período, o Estado não tem compromisso direto com aquela rodovia, que fica a cargo da empresa privada, e fiscaliza se estão agindo dentro das normas técnicas e das quatro linhas do contrato.
Os liberais estão numa confusão cognitiva em que precisam se decidir: continuarão com o discurso de que “o privado é bom”? Mas, quando a corda aperta, o Estado deve socorrer, intervir. O Estado é existencialmente mau? Ele é bom quando a iniciativa privada necessita?
Não está na hora de os liberais reverem seus conceitos e princípios? Decidirem o que querem ou defendem?